Nos últimos anos, tenho refletido bastante sobre representatividade na cultura pop e como personagens podem impactar nossa percepção sobre nós mesmos. Um dos temas que mais me marcou nessa jornada foi a bissexualidade — tanto na ficção quanto na vida real. Por isso, neste texto, quero falar sobre bissexualidade: o conceito, minha ótica pessoal e personagens bissexuais que marcaram minha trajetória.
O que significa ser bissexual?
A letra B da sigla LGBTQIA+ não é de biscoito. Uma pessoa bissexual sente atração romântica e/ou sexual por pessoas de diferentes gêneros. Há um mito de que a bissexualidade se restringe a um binarismo entre homens e mulheres, mas isso não é verdade. O Manifesto Bissexual, publicado em 1990, já desmistificava essa ideia ao afirmar que a identidade bi não exclui pessoas trans ou não binárias. Estudos também mostram que a bissexualidade é a orientação sexual mais comum dentro da comunidade LGBTQIA+. Segundo um relatório da GLAAD de 2022, cerca de 52% das pessoas que se identificam como LGBTQIA+ nos Estados Unidos são bissexuais. Apesar disso, a bifobia e a invisibilização ainda são desafios constantes.
Ao contrário do que alguns pensam, a bissexualidade não significa ser "50% hétero e 50% gay". Ser bi é completo por si só, e não há regras que precisamos seguir para sermos validados. Você não precisa ter experiências com diferentes gêneros para se identificar como bissexual. Estar em um relacionamento heterossexual não te torna menos bi, assim como estar com alguém do mesmo gênero não te torna menos você.
Minha jornada de autodescoberta
Minha jornada de autodescoberta foi turbulenta. Cresci em um ambiente cristão e conservador, o que tornou esse processo ainda mais difícil. Aos 15 anos, comecei a refletir sobre minhas atrações e percebi que sempre houveram sinais. Lembrei de um episódio da minha infância envolvendo uma colega de classe—talvez minha primeira "manifestação" da bissexualidade.
Foi um período de confusão. Em um dia, achava que era lésbica; no outro, suspirava por um garoto da escola. O mesmo acontecia com personagens 2D. Busquei respostas na internet, o que me deixou ainda mais confusa, até que conversar com amigas bissexuais mais velhas me trouxe alívio. Finalmente, entendi que não havia nada de errado comigo.
Representatividade na cultura pop
Quando penso em personagens bi que marcaram minha trajetória, Haru Sohma (Fruits Basket, 2019) sempre vem à mente. Ele expressa sua sexualidade de forma natural, sem grandes alardes. Syaoran Li (Cardcaptor Sakura) também tem um arco de autodescoberta incrível, tratado com a mesma normalidade.
Mas a representatividade bi não se limita a animes e mangás. A cultura pop ocidental também tem exemplos icônicos, como:
John Constantine (DC Comics): O anti-herói e ocultista da DC é canonicamente bissexual nos quadrinhos e, mais recentemente, em suas adaptações animadas e na série Legends of Tomorrow.
Korra e Asami (The Legend of Korra): O final da animação confirmou que as duas protagonistas desenvolveram um relacionamento amoroso, sendo um marco na representatividade LGBTQIA+ em animações ocidentais.
Loki (Marvel): O deus da trapaça, tanto nos quadrinhos quanto no MCU, é confirmado como bissexual, algo que foi sutilmente abordado na série Loki da Disney+.
Esse tipo de representação deveria ser mais comum na vida real, mas a pressão da heteronormatividade nos faz passar por processos dolorosos para aceitarmos quem somos. Hoje, busco obras que ajudem outras pessoas a se entenderem melhor. Ao no Flag (Panini, 2017) aborda a adolescência e suas inseguranças de forma sensível, enquanto Araburu Kisetsu no Otome-domo yo (2019) trata da descoberta da sexualidade de maneira genuína e humana.
Além desses, há inúmeros personagens bi em histórias que não giram em torno disso. Dio (JoJo’s Bizarre Adventure) é um exemplo icônico, e a representatividade só cresce. Autores têm explorado cada vez mais diversidade, permitindo que novas gerações se enxerguem em suas narrativas.
O impacto da representatividade
Talvez minha versão de 15 anos teria sofrido menos se tivesse encontrado histórias e personagens assim antes, ou até mesmo lido um texto como este. Dados indicam que pessoas bissexuais têm maior risco de enfrentar problemas de saúde mental devido à bifobia e à falta de aceitação. Um estudo da Trevor Project aponta que jovens bi relatam taxas mais altas de ansiedade e depressão do que seus pares gays e lésbicos. Isso mostra o quanto é essencial termos mais representatividade e narrativas que normalizam a bissexualidade.
Espero que, se você chegou até aqui, tenha se sentido acolhido. Sua identidade não precisa seguir definições rígidas da internet. O importante é estar em paz consigo mesmo e viver os amores que quiser—ou não viver nenhum, se for sua escolha. Você é válido do jeito que é.