Escrito originalmente em julho de 2022.
Kageki Shoujo foi publicada inicialmente na Jump Kai, uma revista com demografia classificada como seinen (revistas japonesas voltadas para homens de meia-idade). No entanto, a revista foi descontinuada, e a autora deu continuidade à obra na Melody, uma revista dedicada a histórias shoujo (voltadas para o público feminino). Na revista original, dois volumes foram publicados, e, até o momento, a série conta com 12 volumes.
Infelizmente, a obra não foi serializada no Brasil, e mesmo em inglês não está completa. Por isso, a adaptação para anime pode ter sido o primeiro contato de muitos fãs com a história. Aproveito para destacar que fiquei muito feliz ao saber que a Crunchyroll está dublando a obra, o que significa que teremos Kageki Shoujo em português.
Mas, afinal, do que se trata a adaptação que o estúdio Pine Jam nos entregou em 2021?
A Trama de Kageki Shoujo
Ter sucesso na Companhia de Teatro Kouka envolve muito mais do que talento bruto. Durante a escola, as protagonistas enfrentam de tudo para realizar seus sonhos, precisando superar ciúmes, traição, dores físicas e psicológicas inerentes à indústria do entretenimento. Esta é uma história sobre amadurecimento, com personagens cheios de personalidade e profundidade.
Antes de analisar a trama em si, é importante destacar que a trilha sonora, embora não seja surpreendente, cumpre bem seu papel. A abertura, Hoshi no Okesutora, interpretada pela banda Saji, transmite exatamente a proposta do anime: superação, drama e muita energia. A combinação perfeita com a animação me transporta para aberturas clássicas de mahou shoujo, com heroínas românticas e poderosas.
O encerramento também não decepciona. Hoshi no Tabijin é interpretada pelas próprias atrizes de voz das personagens, e tanto a animação quanto a canção são alteradas conforme o foco do episódio. Durante a temporada, eu ficava ansiosa para descobrir como seria a performance de cada episódio. Reforço como as músicas carregam a mesma densidade de aberturas clássicas como Sailor Moon e Shoujo Kakumei Utena. Hoshi no Okesutora ficou facilmente entre as músicas que mais ouvi em 2021.
O Teatro Takarazuka como Inspiração
Kageki Shoujo simula o famoso Teatro Takarazuka, totalmente feminino, como base para seu cenário. Mesmo sem esperar que o público saiba exatamente do que se trata, o anime traz uma série de referências fiéis.
Para os curiosos, o Teatro Takarazuka foi criado em 1913, com apresentações musicais no estilo Broadway. O grande diferencial é que todos os papéis são representados por mulheres, seguindo o modelo original do Kabuki, antes que as mulheres fossem banidas em 1629. Dentro das trupes, existem atrizes que desempenham papéis femininos e outras que representam os masculinos, algo que é abordado no anime. Além disso, existem cinco trupes, que se diferenciam pelo estilo.
A tradição do Kabuki e do Teatro Takarazuka é rica e complexa, impossível de sintetizar em uma breve apresentação. E é por isso que Kageki Shoujo é tão cativante: ao acompanhar as alunas da centésima turma, mergulhamos nessa cultura fascinante.
As Protagonistas: Ai e Sarasa
Nossas protagonistas são ambas desajustadas, cada uma à sua maneira. Ai Narata ingressou na escola buscando um ambiente livre de homens. Sua história é pesada, e deixo um alerta para gatilho de abuso sexual no episódio três (entre 10:00 e 12:28). Além dos traumas da infância, sua experiência como idol na adolescência só a isolou ainda mais das pessoas. Bonita, talentosa e já famosa entre os jovens, Ai enfrenta a inveja de colegas e até de veteranas, mesmo que ela mesma não se veja dessa forma.
Seu oposto é Sarasa Watanabe, sua colega de quarto. Alta, esbelta e com olhos estrelados, Sarasa é extrovertida e inocente. Ela se apaixonou pelo Teatro Kouka ao assistir *Rosa de Versalhes* e sonha em se tornar Lady Oscar nos palcos. Com seu talento bruto, Sarasa atrai a atenção de todos: colegas, professores e até mesmo de Ai.
O "Efeito Boruto" e a Profundidade dos Personagens
Existe um clichê comum nos animes, do shoujo ao shounen, que vou chamar de “efeito Boruto”. Isso porque, em Naruto Next Generations, um dos amigos de Boruto o chama de “meu sol”, aquele que dá significado à sua vida e o motiva a continuar. Esse conceito se aplica a dezenas de personagens, protagonistas ou não. No entanto, Sarasa não é assim. Apesar de alegre e extrovertida, a autora permite que ela também seja triste, tenha incertezas e até sinta ciúmes.
As vidas de Ai e Sarasa se entrelaçam, e juntas elas superam muitos momentos difíceis. O anime tem uma única temporada de treze episódios, que conta a história da centésima turma da Kouka, indo muito além do relacionamento entre as duas protagonistas.
Conclusão
Poderia falar por horas sobre Kageki Shoujo e como cada pequeno detalhe me deixa eufórica. O último episódio foi uma despedida difícil, principalmente porque não houve anúncio de uma nova temporada. No entanto, ele fecha a história em um ótimo ponto, e passou a ser uma recomendação recorrente minha para amigos.
Se você ainda não assistiu, está perdendo uma obra que combina drama, superação e uma imersão fascinante no mundo do teatro. Kageki Shoujo é, sem dúvida, uma joia que merece ser apreciada.